ALGUNS ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO CAPITALISTA ACTUAL por Antxon Mendizabal e Sagra Lopez. Publicado em ALDARRIKA: Observando de perto o inimigo. Dossier FMI, BM, GATT. Seminário Erándio 1, 2, 3, Julho de 1994. Pp 3-17
A civilizaçom capitalista nom é mais do que umha das mil formas históricas que pudo tomar a civilizaçom humana. É esta forma de civilizaçom que converte a vida humana num grande bazar em que se compra e vende tudo; em que tudo vale em funçom da sua capacidade de troca; e em que tudo, mesmo a pessoa humana, é susceptível de se transformar em mercadoria.
O capitalismo ocorre na história como umha tempestade que açouta a humanidade e toma hoje a força de um enorme maremoto em que a dimensom da onda reflecte a magnitude do desastre. Um maremoto em que o enorme nível de acumulaçom de capital produzido reflecte também o enorme nível de miséria visível e (no intrincado e quase infinito mundo da natureza humana) que oculta por sua vez o muito superior nível de miséria intangível.
Após a queda do socialismo real, o capitalismo ocorre como um maremoto orgulhoso, descarnado, selvagem, que após o dourado e luminoso painel da "nova ordem internacional" esconde um insolente abismo de desarraigamento e exclusom que adquire a magnitude de um enorme drama universal.
Esta Comunicaçom nom pretende abordar a análise rigorosa de um maremoto tam complexo, dinámico e terrível para o nosso povo e a nossa humanidade. Com muitíssima menor ambiçom, trataremos de reflectir algumhas variáveis significativas que nos permitam identificar a época actual.
Destarte, os dados frios demonstram a existência de umha bolsa de pobreza de mais de 1.200 milhons de pessoas, enquanto se generalizam os conflitos nacionais e as guerras de baixa intensidade nestas latitudes, numha situaçom em que mais de 3.500 milhons de habitantes dos países pobres disponhem de um ingresso global inferior ao de França. Assim, 23% da populaçom mundial pertencente aos países industrializados e dispom de 86% do produto bruto mundial, enquanto os mais de 4.000 milhons de habitantes dos países pobres devem conformar-se com apenas 14% restante.
As estatísticas reflectem também um mundo em que 14 milhons de crianças morrem de fame, diarreia e malnutriçom anualmente; onde em muitas regions do Planeta (Centro América, etc.) a maioria da populaçom está por baixo da metade do limiar da pobreza; enquanto o mundo emprega 25% dos seus cientistas e investigadores na indústria bélica, investe em armamento mais de 1.000 milhons de dólares cada 12 horas (e isso após a queda da Ex-URSS) e projecta para o ano 2.020 a implantaçom de bases de vida humana permanente no planeta Marte (1).
Em começos dos anos 80, a reduçom dos ingressos dos países em vias de desenvolvimento, provocada polo esgotamento do processo exportador e o incremento do preço da energia que devem pagar, combina-se com o incremento dos pagamentos que devem efectivar esses mesmos países como conseqüência da desvalorizaçom do dolar e os incrementos da taxa de juro (derivados da política de oferta do presidente Reagan que financia o défice fiscal com emissons de Dívida Pública), convertendo a dívida externa numha realidade impossível de ser solvida e que afoga os projectos de desenvolvimento.
A dívida externa dos países em vias de desenvolvimento tem-se duplicado nos últimos 10 anos atingindo a soma de 1,34 bilhons de dólares e tem obrigado a estes países a reembolsarem cerca de 140.000 milhons de dólares, apenas em qualidade de pagamento de juros, destinados aos bancos acredores dos países do Norte; desviando destarte uns recursos vitais para o desenvolvimento de urgentes necessidades sociais nos países pobres. América Latina é o continente mais endividado do mundo em valor absoluto, com umha dívida total de 460.000 milhons de dólares que obriga a destinar 40% das exportaçons do continente para o pagamento da dívida. Porém, a África Negra, com umha dívida global de 150.000 milhons de dólares, tem a maior dívida relativa do Planeta, umha vez que as suas fracas economias nom tenhem a mínima capacidade de reembolso para solvê-la (4).
A receita mundial das políticas de ajuste do Fundo Monetário Internacional consistente na desvalorizaçom da moeda nacional, a reduçom dos níveis salariais, o recorte das despesas sociais e a eliminaçom muitas vezes dos subsídios à alimentaçom, vai provocar um enorme empobrecimento das classes populares dos países devedores, que financiam destarte a dívida contraída polas suas elites dominantes. Nestas condiçons, desaparece a procura interna dos países em vias de desenvolvimento e as empresas multinacionais deixarám de investir nos seus mercados.
Os limites do processo som evidentes. Em primeiro lugar, é preciso considerar os limites económicos derivados da contradiçom de interesses existente entre os bancos comerciais, que centram a sua política em cobrarem a dívida, e os produtores do Primeiro Mundo, que precisam do desenvolvimento destes mercados para resituarem os seus produtos (haveria que considerar também aqui os limites derivados da necessária estabilidade do Sistema Monetário Internacional). Em segundo lugar, cumpre considerar os limites polílticos provocados polo forte agravamento da pobreza nestas latitudes e exprimido nas explosons sociais que no Brasil, Panamá, Santo Domingo, Caracas, Buenos Aires, O Cairo, Tunísia, Casablanca, etc. delimitárom o horizonte do que estám dispostos a aturar estas populaçons (5).
Destarte, as recentes borrascas monetárias que atingírom o Franco francês, a Libra esterlina, a Lira italiana e mais recentemente o dólar (neutralizando as acçons empreendidas polas bancas centrais dos seus estados respectivos) devêrom-se em grande parte ao extraordinário desequilíbrio existente entre, de umha parte, a amplitude dos capitais-dinheiros flutuantes e, de outra parte, as reservas de cámbio dos bancos centrais europeus. A enorme amplitude dos capitais descritos precisa-se quando observamos que as transacçons deste capital nos mercados de cámbio num só dia laborável se elevam a 900.000 milhons de dólares, o que equivale ao volume anual do comércio mundial e a três vezes as reservas de cámbio das 7 principais potências industriais.
Na reuniom celebrada polo G-7 em primeiros de Julho do presente ano em Nápoles, o primeiro ministro italiano afirmou que na actualidade existe "umha distáncia entre a economia real e os mercados" e reiterou a convicçom entre os líderes do G-7 de que os grandes volumes monetários que se movem diariamente em todo o mundo ultrapassam a capacidade de intervençom dos bancos centrais em defesa das moedas. Em coerência com o manifestado, desestimou a eficácia de umha intervençom concertada dos bancos centrais dos países do grupo em defesa do dólar.
Cumpre lembrarmos nesta altura que este grave problema da especulaçom imobiliária e bolsista está na base do crash de 1987. Por esta razom, os capitais-flutuantes deslocárom-se progressivamente para os mercados de cámbio e as decisons monetárias de 31 de Julho de 1993 aumentam de novo os riscos dos especuladores e provocam o seu progressivo retorno à bolsa. Em Nova Iorque, Londres, Francoforte, Tókio, etc. os cursos das quotizaçons sobem aceleradamente, mas de novo, este crescimento nom corresponde a um crescimento nas mesmas proporçons da produçom (7).